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Mulheres da Via Campesina

Mulheres da Via Campesina ocupam área ilegal da Stora Enso no RS

Cerca de 900 mulheres da Via Campesina ocuparam a fazenda Tarumã, de
2.100 hectares, no município de Rosário do Sul, a aproximadamente 400
km de Porto Alegre, na manhã desta terça-feira (04/03), quando
iniciaram o corte de eucaliptos e o plantio de árvores nativas em área
que pertence à empresa sueco finlandesa Stora Enso.

A transnacional estrangeira, pela legislação brasileira (lei nº 6.634
de 1979; e o artigo 20, parágrafo 2 da Constituição Federal), não pode
adquirir terras em uma faixa de 150 km da fronteira do Brasil com
outros países. No entanto, a transnacional vem comprando dezenas de
áreas no Rio Grande do Sul, próximo da fronteira com Uruguai onde a
empresa também tem plantios. A meta é formar uma base florestal de
mais de 100 mil hectares e implantar fábricas na região.

Em nota distribuída à imprensa as mulheres declaram o seguinte: "Nossa
ação é legítima. A Stora Enso é que é ilegal. Plantar esse deserto
verde na faixa de fronteira é um crime contra a lei de nosso país,
contra o bioma pampa e contra a soberania alimentar de nosso estado
que está cada vez mais sem terra para produzir alimentos. Estamos
arrancando o que ruim e plantando o que é bom para o meio ambiente e
para o povo gaúcho".

Multinacional age ilegalmente

A Stora Enso adquiriu as terras em nome da empresa Derflin, que é o
braço da multinacional para produzir matérias-primas. Como a Derflin
também é estrangeira não conseguiu legalizar as áreas. Por isso, a
Stora Enso criou uma empresa laranja: a agropecuária Azenglever, de
propriedade de dois brasileiros: João Fernando Borges e Otávio Pontes
(diretor florestal e vice-presidente da Stora Enso para a América
Latina, respectivamente). Eles são atualmente os maiores
latifundiários do RS.

Cerca de 50 fazendas, totalizando mais de 45 mil hectares, já estão
registradas em nome da Agropecuária Azenglever. Entre essas áreas,
está a Tarumã, ocupada pelas mulheres camponesas. Há um inquérito na
Polícia Federal responsável para investigar o crime, mas a empresa
continua agindo livremente.

A seguir, leia a pauta de reivindicações das mulheres no manifesto das
mulheres da Via Campesina.
.
Manifesto das Mulheres da Via Campesina
.
Nós mulheres da Via Campesina do Rio Grande do Sul estamos mais uma
vez mobilizadas, nesta semana do 8 de março, para intensificar nossa
luta contra o agronegócio e em defesa da soberania alimentar da
população brasileira.

A soberania alimentar é o direito dos povos de produzir sua comida
respeitando a biodiversidade e os hábitos culturais de cada região.
Hoje em nosso país as riquezas naturais estão sob domínio das empresas
multinacionais do agronegócio e a população tem cada vez menos acesso
à terra, à água e aos alimentos.

Nós mulheres somos as primeiras a serem expulsas das atividades
agrícolas nas áreas onde avança o agronegócio. Nosso trabalho é
importante em uma agricultura camponesa porque sabemos produzir
alimentos. Mas as empresas do agronegócio não estão preocupadas em
produzir comida, só em produzir lucro transformando o campo em
desertos verdes (de eucalipto, de soja, de cana). Um dos desertos que
mais cresce em nosso Estado é o de eucalipto para celulose.

As empresas de celulose estão fechando fábricas nos Estados Unidos e
na Europa e vindo para a América Latina. Aqui encontram muita terra,
água, clima favorável e governos dispostos a atender seus interesses.
Mais de 90% da produção de celulose do Brasil é para exportação.
Assim, reduzimos a produção de comida, destruímos a biodiversidade,
aumentamos a pobreza e a desigualdade para atender a demanda de lucro
das empresas e um estilo de vida consumista nos países ricos. Esse é o
papel horroroso que o Brasil cumpre hoje no mundo.

Uma das empresas responsáveis pelo avanço do deserto verde no Rio
Grande do Sul é a Stora Enso, multinacional sueco-finlandesa. Pela lei
brasileira estrangeiros não podem ter terra em uma faixa de 150 km da
fronteira do Brasil com outros países. Acontece que a Stora Enso já
tem milhares de hectares plantados no Uruguai e é exatamente próximo
da fronteira gaúcha com este país que essa gigante do ramo de papel e
celulose quer formar uma base florestal de mais de 100 mil hectares.

Inicialmente a Stora Enso tentou comprar as terras em nome da empresa
Derflin, o braço da multinacional para produção de matéria prima, que
por ser estrangeira não conseguiu legalizar as áreas.

Para viabilizar sua implantação a multinacional criou uma empresa
laranja que está comprando as terras em seu nome: a agropecuária
Azenglever Ltda, cujos donos são dois importantes funcionários da
Stora Enso. Eles se tornaram os maiores latifundiários do estado,
sendo "proprietários" de mais de 45 mil hectares. Essa operação ilegal
é de conhecimento dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, do
Incra, da Polícia Federal, mas nada de concreto foi feito para impedir
o avanço do deserto verde. Decidimos então romper o silêncio que paira
sobre esse crime.

Nossa ação é legítima. A Stora Enso é que é ilegal. Plantar esse
deserto verde na faixa de fronteira é um crime contra a lei de nosso
país, contra o bioma pampa e contra a soberania alimentar de nosso
estado que está cada vez mais sem terras para produzir alimentos.
Estamos arrancando o que é ruim e plantando o que é bom para o meio
ambiente e para o povo gaúcho.

Alguns parlamentares gaúchos ao invés de combaterem a invasão dos
estrangeiros estão propondo reduzir a Faixa de Fronteira para
legalizar o crime. Usam o argumento de que a faixa de 150 km impede o
desenvolvimento econômico dos municípios. Mas isso é uma grande
mentira. Todos sabem que a Metade Sul não se desenvolve por causa do
latifúndio e das monoculturas. Tanto que a faixa de fronteira também
vigora na metade norte do estado e nessa região a economia é dinâmica.

As empresas de celulose prometem gerar emprego e desenvolvimento. Mas
onde elas se instalam só aumenta o êxodo rural e a pobreza. Os
trabalhos que geram são temporários, sem direitos trabalhistas, em
condições precárias. Um exemplo é a Fazenda Tarumã em Rosário do Sul,
de 2,1 mil hectares onde a Stora Enso gera somente dois empregos
permanentes e alguns empregos temporários.

Se essa área for destinada para a reforma agrária podem ser assentadas
100 famílias gerando no mínimo 300 empregos diretos permanentes.
Portanto, a Reforma Agrária e a Agricultura Camponesa é que são a
melhor alternativa para preservar a biodiversidade, gerar trabalho e
renda para a população do campo e alimentos saudáveis e mais baratos
para quem mora nas cidades.

O projeto que tramita no Senado propondo reduzir a Faixa de Fronteira
brasileira não inclui a Amazônia porque entende que isso seria uma
ameaça para a floresta. Ou seja, admite que a redução da Faixa de
Fronteira irá aumentar a destruição ambiental. Para nós todos os
biomas brasileiros são importantes e entendemos que o Cerrado e o
Pampa também precisam ser preservados.

Nós mulheres da Via Campesina reivindicamos das autoridades brasileiras:

- Anulação das compras de terra feitas ilegalmente pela Stora Enso na
faixa de fronteira e expropriação dessas áreas para a reforma agrária.
Somente nos 45 mil hectares que estão em nome da empresa laranja, a
Agropecuária Azenglever daria para assentar cerca de 2 mil famílias,
gerando 6 mil empregos diretos. Atualmente 2.500 famílias estão
acampadas no Rio Grande do Sul e o Incra alega não ter terras para
fazer assentamento.

- Retirada dos projetos no Senado e na Câmara Federal que propõem a
redução da Faixa de Fronteira. Essa medida só vai beneficiar empresas
como a Stora Enso que querem se apropriar das terras para
transformá-las em deserto verde, destruir nossas riquezas naturais
como o aqüífero guarani e o bioma Pampa. Para o povo gaúcho essa
redução da faixa de fronteira só vai provocar aumento do êxodo rural,
do desemprego, da destruição ambiental e o fim soberania alimentar
pois vai faltar terra para produzir alimentos.

Sabemos que por lutar contra o deserto verde podemos sofrer a
repressão do governo gaúcho. É prática desse governo tratar os
movimentos sociais como criminosos e proteger empresas que cometem
crimes contra a sociedade. Vamos resistir. Nossa luta é em defesa da
vida das pessoas e do meio ambiente. Estamos aqui em 900 mulheres, mas
carregamos conosco a energia e a coragem das milhares de camponesas
que em todo o mundo lutam contra a mercantilização das riquezas
naturais e da vida. Como dizia a companheira sem terra Roseli Nunes,
assassinada covardemente em março de 1987 aqui no Rio Grande do Sul,
"preferimos morrer lutando do que morrer de fome!".

Mulheres da Via Campesina do Rio Grande do Sul,

Brasil, 04 de março de 2008.
.
Assessoria de Comunicação da Via Campesina
Porto Alegre: 51 9994-6156
Rosário do Sul: 51 9992-7674
--
www.panuelosenrebeldia.org
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